02-10-2018
Notícia publicada no próprio "Voz do Operário" por BRUNO AMARAL DE CARVALHO

PROSTITUIÇÃO, UMA FORMA DE VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

"Um dia, estavam dois tipos a preparar uma dose de crack na porta da entrada de uma casa e sentei-me ao lado deles e perguntei o que estavam a fazer". É assim que o fotógrafo Tiago Figueiredo descreve como se começou a aproximar, no ano passado, de uma realidade que parece invisível mas que está à vista de todos no Intendente, em Lisboa. No coração de uma das zonas mais gentrificadas e turistificadas da cidade, acompanhou, durante vários meses, um mundo marcado pelas drogas e pela prostituição. Desse trabalho, resultaram retratos de quatro mulheres que ficaram em exposição na Casa Independente sob o título "Viene y Va", poema de uma das fotografadas.

Não foi um processo fácil. "Toda a gente me reconheceu como outsider e, para além disso, estava com uma câmara e assumi sempre o que sou", explica. "É uma realidade muito dura morar à distância de uma colina de um lugar onde vi cenas terríveis. Depois, voltava a subir a colina e estava em casa na sala a ver séries na netflix. Era difícil mudar o switch." Antes de começar o trabalho, "tinha umas ideias vagas sobre o assunto e achava que as pessoas podiam de facto querer prostituir-se. Há todo um discurso eufemístico em relação à prostituição de gente que acha tudo muito normal mas que depois evita passar por lá com os filhos". Esta experiência fez Tiago Figueiredo perceber "que elas não queriam estar ali, estavam ali por desespero". Ao longo do tempo, foi percebendo que havia um "ciclo vicioso de uma série de dependências e vidas destruídas" que não seriam recuperadas "pela normalização e pela assunção da legalidade daquela atividade". Dá o exemplo de uma mãe com dois empregos que perdeu um dos trabalhos e deixou de conseguir pagar a renda da casa. "Há um dia que se vai prostituir e começa a beber para conseguir lidar com aquilo. Entretanto, oferecem-lhe droga porque é mais potente e de repente o problema dela já não é só arranjar dinheiro para a casa, é também arranjar dinheiro para pagar a droga". Tiago Figueiredo considera que não se é prostituta por vocação: "Há uma fragilidade de quem tem menos dinheiro. Essa sensação de que quem tem mais pode qualquer coisa. Se precisares de um rim vais ter com alguém que te venda um rim. Mas de certeza que não vai ser o filho do Belmiro de Azevedo que te vai vender o rim. Vai ser alguém para quem essa proposta seja vantajosa. Vamos sempre bater numa questão de distribuição de riqueza".

A experiência d'O Ninho

A trabalhar, desde 1967, com mulheres prostituídas, a associação O Ninho coincide nos argumentos e acrescenta que "a prostituição é violência sexual, psicológica e física". Dália Rodrigues, diretora técnica da instituição, afirma que até ao momento não conheceu uma única mulher que estivesse na prostituição por vocação, feliz ou que sendo rica tivesse optado por se prostituir. Sobre as propostas de regulamentação, é peremptória. "Não conhecemos nenhuma mulher que dissesse que se quer registar nas finanças como prostituta. Normalmente, não querem que a família saiba, nem que os amigos saibam. Para além disso, se puderem passar faturas, o cliente vai querer ter no seu registo das finanças que comprou sexo?", questiona. Dália Rodrigues descreve o trabalho das equipas d'O Ninho junto das mulheres que se prostituem tanto na rua como em espaços fechados. "Nós não vamos lá dizer para abandonarem a prostituição. É uma decisão que têm de ser elas a tomar. Dizemos que estamos cá e que vamos ajudar em tudo o que pudermos. Temos alojamentos e oficinas e temos um protocolo com a autarquia de Lisboa para integrar estas pessoas no mercado de trabalho". Explica que os casos mais complicados passam pelas mulheres estrangeiras indocumentadas, muitas delas traficadas sem acesso a qualquer direito. "Sobretudo, brasileiras e nigerianas. São os casos mais frustrantes porque se demora muito a conseguir a documentação. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras tarda muito em dar uma resposta e as pessoas estão a fazer um percurso, a sentirem-se mais integradas mas depois falta um documento que as identifique e legalize. Isso faz muito mal até a nível da saúde mental. E nós sentimo-nos impotentes". Dália reforça que as violências a que estas mulheres estão sujeitas "são muito pesadas" e que "a prostituição não é aquela imagem de mulheres muito bonitas e muito felizes". Quando O Ninho faz ações de sensibilização nas escolas, conta que são muito diretos com os jovens que acham que podem fazer o que quiserem com mulheres desde que paguem. "Respondemos que, se é um trabalho como outro qualquer, não se importarão, seguramente, que familiares seus ou que eles próprios sigam essa 'carreira profissional. A nenhum deles lhe agrada a ideia'", explica.

Leia toda a noticia em .PDF (Pag.6 e 7)



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