Histórias de Vida
– “Gracinda”
“Gracinda” tem 40 anos e nasceu em Moçambique. Veio para Portugal com 2 meses com a família no processo de descolonização. Com mais 3 irmãos, a sua família viria a desagregar-se com o falecimento precoce da mãe. “Gracinda” tinha apenas 10 anos. Relata que o pai “morreu” no dia em que a mãe faleceu e que desde então se isolou, distanciou e entregou-se ao álcool. Após a morte da mãe, relata um ambiente de desproteção, negligência, insegurança, falta de cuidados e abusos durante a sua adolescência. Não conseguiu estabelecer relações afetivas duradouras, nem teve figuras de referência.
Do seu percurso na adolescência refere ter sido violada por duas vezes por indivíduos do bairro onde residia.
Diz ter-se apaixonado por um indivíduo, com quem teve 2 filhos, que mais tarde viria a explorá-la sexualmente. Quando o marido submeteu a filha de 2 anos à mutilação genital feminina, esta ganhou coragem e pediu ajuda. Coincidentemente, soube que numa viagem ao seu país de origem para angariar meninas para a prostituição, o marido foi morto por um rival.
Desempregada, sem quaisquer apoios, com dois filhos para sustentar começa a prostituir-se numa estrada.


– “Lucas”
“Lucas” tem 32 anos. Nasceu no interior do Brasil, numa pequena cidade marcada pela pobreza, pelas promessas vazias e pela violência normalizada nas ruas e dentro das casas.
Foi criado por uma avó rígida e religiosa e por um avô que abusava do consumo de álcool e era agressivo, depois que a mãe, toxicodependente, desapareceu quando ele ainda era criança. Nunca conheceu o pai. Aprendeu cedo que a vida não oferecia saídas fáceis para quem nascia pobre.
Sofreu abuso sexual por um vizinho, com 10 anos.
Aos 19 anos, conheceu um homem que lhe prometeu uma vida nova na Europa. “Disse-me que podia trabalhar num restaurante em Portugal, que ia ganhar bem, que era a minha chance de mudar de vida. Que iríamos ficar juntos em Portugal.” Lucas embarcou num avião com um visto de turista, um saco com roupa e a esperança de enviar dinheiro para a avó que o criara.
A realidade foi outra.
Ao chegar a Lisboa, o homem mudou o comportamento. “Disse-me que tinha dívidas a pagar da viagem, da estadia, da alimentação. Que agora o meu corpo ia ser o meu trabalho.” Ficou-lhe com o passaporte alegando que iria arranjar um advogado para o ajudar a tratar da documentação, mais uma despesa para pagar.
Lucas começou a prostituir-se. No início, resistiu, tentou arranjar outro trabalho, mas foi impossível, sem documentação, sem dinheiro, não conhecia ninguém…
O “amigo” arranjou um apartamento para ele ficar, dividia o espaço com outros rapazes e raparigas, todos na mesma situação, todos se prostituíam no apartamento.
“Comecei a apagar-me por dentro. Tinha vergonha de mim. Vergonha de estar ali. Vergonha de não conseguir sair. Acostumei-me à minha vida, ao meu destino.”
Só mais tarde, Lucas conheceu uma assistente social que trabalhava no Ninho.
Hoje, tem sessões regulares de apoio psicológico através de O Ninho. Está a tratar da regularização da sua situação em Portugal. Consegue perceber que pode existir um caminho diferente, uma liberdade que já não conhecia.
– “Rafaela”
Rafaela tem 29 anos, uma vida marcada pela dor. Cresceu como o mais novo de quatro irmãos, todos rapazes, numa casa onde o dinheiro e o afeto eram igualmente escassos.
A mãe trabalhava sem parar, como podia para alimentar os quatro, mas o que trazia para casa mal chegava para comer, somente chegava para o essencial.
Desde criança, Rafaela sabia que era diferente. Na escola, os insultos vinham todos os dias: “mariquinhas”, “aberração”, “coisa estranha”. Empurrões, risos e olhares de desprezo eram rotina, sentia que não era como os outros meninos.
Em casa, talvez sem perceber o impacto, a mãe, por vezes, vestia-o com roupas de menina. A mãe sempre sonhou ter uma menina, Rafaela, era o mais novo e a mãe idealizava em Rafaela uma menina. Para ela, era o momento mais feliz, sentia-se finalmente certa dentro da própria pele. Gostava da sensação, gostava de se ver ao espelho assim.
A adolescência não trouxe alívio. Cada tentativa de ser ela mesmo era punida com violência verbal ou silêncio gelado, tanto da comunidade como dos próprios irmãos, que nunca a aceitaram como era.
A dança surgiu como refúgio, uma forma de expressar o que sentia, um lugar onde podia existir sem pedir desculpa. Começou em pequenos espetáculos, mas o dinheiro era pouco. Para pagar as contas e sobreviver, foi empurrada para a prostituição. As noites tornaram-se um campo de batalha: um corpo que vendia para poder comer, mas que cada vez sentia menos como seu. As noites eram longas, e cada cliente deixava marcas que não se viam por fora.
A vida foi dura, marcada por episódios de dor e rejeição.
O desejo de iniciar a transição hormonal cresceu como uma âncora no peito. Mas os custos eram absurdos e as barreiras, quase impossíveis. Entre clientes agressivos, ruas frias e dias de fome, Rafaela lutava para não desistir de si mesma. Ainda assim, carregava dentro de si a certeza de quem era.
Foi numa dessas noites, cansada e desconfiada, que conheceu uma assistente social do Ninho. Recebeu um cartão com um número de telefone. Guardou-o no bolso por semanas, até que a coragem falou mais alto.
Quando finalmente entrou no espaço, foi recebida sem julgamentos, foi chamada pelo nome que escolheu, ouvida com respeito. Não houve perguntas envenenadas nem olhares de julgamento. Só escuta. Só respeito.
Hoje, Rafaela frequenta sessões de apoio psicológico e está a tentar concluir os estudos.


– “Ana”
“Ana” tem 25 anos. Aos 16 anos fugiu de casa para ir viver com o namorado de quem estava grávida. A mãe queria obrigá-la a abortar, mas “Ana” queria ter a sua filha.
“Era um desejo tão forte que eu estava disposta a tudo para a ter.”
“Sentia o olhar acusador da minha mãe e o silêncio pesado, vazio de palavras, vazio de afeto.”
“Pedia a Deus que o meu namorado me aceitasse, a mim e à nossa filha. Deus não me ouviu e quando a barriga começou a crescer ele abandonou-me. Senti-me perdida… Não sabia o que fazer, nem onde pedir ajuda.”
“Ana” pensou voltar a casa da mãe, mas teve medo do silêncio, teve medo dos olhares indiferentes. Teve medo da rejeição. E teve medo da pobreza que se instalara na casa da mãe.
“Éramos muitos. A minha mãe trabalhava a dias e o dinheiro não chegava para tudo…”
“Ana” foi prostituída com 17 anos, para ganhar dinheiro para si e para a sua filha, continuando nesta situação até conhecer O Ninho.
“A minha filha pergunta-me onde é que eu trabalho, e eu não quero que ela saiba a vida que faço. Quero que a minha filha tenha uma vida com dignidade e um futuro…um futuro sem conhecer a violência, um futuro com amor, como qualquer outra criança… E eu quero ter outra vida…uma vida também com dignidade…”
Pede apoio e espera… “a minha vida tem sido adiada…e o passar do tempo vai adiando o futuro e preciso do futuro neste momento que, se passa agora, pode já não voltar”.
– “Bela”
“Bela” tem 48 anos. “Nasci em Angola, no meio do mato, comecei a trabalhar na terra para ajudar os meus pais. Nunca fui á escola.”
Com a guerra civil em Angola, instalou-se a fome, a miséria e a violência. A família, para a proteger, manda-a para Portugal, ainda criança, ao cuidado de um casal de portugueses. Da família que por lá ficou nunca mais teve notícias.
Aos 15 anos engravida. O namorado não assume a criança e, desesperada, não encontra nenhuma alternativa. Não conhece ninguém a quem pedir ajuda.
Duas raparigas que se prostituíam no Bairro Alto, dizem-lhe o que fazem para sustentar os filhos e “Bela” vê aquela situação como um recurso temporário para fazer face à sua sobrevivência e do seu filho. Só que, como acontece com a grande maioria das jovens prostituídas, o desejo de que aquela situação seja temporária, não corresponde à realidade. Analfabeta e com uma criança pequena, a sua vida vai piorando. A desorganização interna aumenta, a autoestima diminui. As perspetivas de um futuro diferente parecem cada vez mais longínquas.
Assim que alguém de O Ninho a contactou no meio prostitucional, “Bela” agarrou a oportunidade de concretizar o seu maior desejo, “largar esta vida”.


– “Helena”
“Helena” é alentejana “com muito orgulho”, mas reconhece que, simbolicamente, teve de cortar a sua relação com o Alentejo, onde já foi feliz, mas onde hoje o sofrimento é intolerável.
Descreve a sua infância como feliz até por volta dos 5 anos, quando começa a ter consciência do ambiente de violência criado pelo pai, em casa, devido ao alcoolismo. Os pais acabam por se separar, e ela perde o contacto com o pai.
Fica a viver com a mãe e o padrasto, de quem foi vítima de abusos sexuais. Esta conhecera-o quando acompanhava a sua tia nas visitas à prisão. Era o companheiro de cela do seu tio. Assim que ele saiu, juntaram-se. Contou à mãe o que o padrasto a obrigava a fazer, mas a mãe não acreditou. “Helena” sentia-se muito revoltada porque a mãe não a apoiou e não acreditou nela e, por isso, tentou suicidar-se com comprimidos que pertenciam ao marido da senhora da casa onde começou a trabalhar.
Quando a mãe de “Helena” morre, “Helena” e o seu irmão vão residir para casa dos tios. Foi no dia do falecimento da mãe que a “Helena” conheceu o seu futuro marido. Convidou-a para beber café e foram a um bar, onde a música estava muito alta e ele foi pedir ao dono do bar que baixasse o som, porque ela estava de luto. Disse que esta atitude “caiu muito bem”, sentiu-se respeitada e compreendida.
Mais tarde, casou com este namorado e tudo correu bem até à primeira gravidez, quando começou a sofrer agressões. Numa altura de maiores dificuldades económicas, levou-a de mota até ao local, onde estavam mais mulheres a prostituir-se, e ficava escondido à espera de que ela lhe fosse entregar o dinheiro. “Helena” conta que tentava sempre fazer o dinheiro que ele queria para evitar agressões. Quando conseguia, estava tudo bem entre eles.
Após várias queixas por maus-tratos da vizinhança à GNR, que ouviam os gritos de “Helena” e tendo a mesma recusado ir para um Centro de Acolhimento para vítimas de violência doméstica, foi acionada a CPCJ para proteção dos menores. Um dos filhos foi retirado para adoção e outro foi institucionalizado.
Perante isto, as situações de agressão agravaram-se, levando “Helena” a fazer várias fugas de casa. “Eu só quero endireitar a minha vida, ter um trabalho e ir buscar o meu filho.”
Quando o marido é preso por tráfico de droga, “Helena” decide que é a oportunidade que tem para alterar a sua situação. Pede ajuda para deixar de se prostituir e pede apoio psicológico para conseguir levar por diante a separação deste indivíduo agressor.
