Trabalho de Rua

Trabalho de rua

Visa conhecer o meio prostitucional e os seus agentes através de contactos sistematizados com mulheres na rua e nos bares, estabelecendo relações empáticas e de confiança, e a partir da relação já estabelecida vai alargando os contactos a outras mulheres e a outros agentes do “meio” .
Faz acompanhamento psicossocial a partir dos problemas colocados pelas mulheres em coordenação com o Centro de Atendimento.
Informa as mulheres sobre os recursos da comunidade e os direitos inerentes à cidadania.

Trafico de mulheres para exploração sexual

A intervenção primeira de O Ninho foi o trabalho de rua, nos locais onde as mulheres são procuradas pelos clientes.

Conhecer o meio prostitucional, compreender as causas e consequências da prostituição, perceber as mudanças que se verificam no “meio” é indispensável para planear acções que visam a promoção das jovens e mulheres que são prostituídas.

Por isso conhecer o grupo alvo é a primeira etapa a realizar, fazendo simultaneamente investigação/acção.

Conhecer os agentes que fazem parte do sistema prostitucional, as regras exigidas, as infra-estruturas – os bares, as pensões, as amas, os bares de espera, os bares de alterna, os bares de luxo, as casas fechadas, os hotéis…

O objectivo integra-se, naturalmente, na finalidade de O Ninho: a promoção humana e social de pessoas prostituídas e, por isso, vai ao encontro das mulheres nos vários locais onde elas se encontram.

Esta aproximação é o primeiro passo para a mulher sentir que existe uma Instituição que a considera como “pessoa única e singular” com dignidade inerente a todo o ser humano, independentemente do seu comportamento.
Ela, a mulher, vive em contradição, em conflito consigo mesma, “não é isto que eu queria para a minha vida”.

Os valores que ela própria considera como válidos, não se coadunam com a sua permanência no meio prostitucional; – “ eu estou aqui por pouco tempo, logo que resolva uns problemas eu saio disto”.

Isto significa que: A permanência na prostituição não faz parte dos planos das mulheres.
O plano é outro: Encontrar uma saída.

“Tire-me daqui, eu já não suporto esta violência, isto é uma morte lenta”
“ Não há ninguém que me possa ajudar. Eu devo dinheiro a uma amiga. Eu devo à ama, eu ainda não paguei a pensão. Hoje tenho que fazer dinheiro”.
“ Eu tenho quatro filhos. Pago 350 Euros de renda de casa, mais água, luz, gás. Onde vou arranjar dinheiro para pagar tudo isto? Já tenho quatro meses de renda em atraso.
Se tenho uma acção de despejo, onde vou deitar os meus filhos?”
É bem significativo o sentimento de “ beco sem saída” em que estas mulheres vivem e não sabem o que fazer, nem como fazer.
“O meu companheiro está desempregado. Ele coitado bem queria ajudar, mas só consegue biscates e o que recebe não chega para quase nada.”
Para as jovens e mulheres o chulo é a sua verdadeira relação afectiva. É “o protector” e é elemento de socialização.
Podemos afirmar que as mulheres prostituídas são provenientes de bairros degradados, de casas sobrepovoadas, de famílias numerosas, de pais alcoólicos. Sofreram maus tratos, abandonos, violações, incestos. Passaram fome. Não se sentiram amadas. Trabalharam na infância a ajudar no campo, a “servir em casa alheia”, a cuidar dos irmãos mais novos.
Não foram à escola, e quando a frequentaram não tiveram sucesso, e quando o tiveram, foi só até ao 4º, 6º ou 7º ano de escolaridade. Cresceram depressa… Namoraram cedo, engravidaram cedo e depois foram abandonadas.
“ Sentia o olhar acusador da minha mãe. Aos 16 anos já tinha feito dois abortos. Do terceiro já não tive coragem!”
E um dia encontra alguém que lhe promete afecto, casamento…e a ilusão instala-se com promessas de amor. Dar o nome ao filho que está para nascer é prova de amor. E a criança nasce e ele cumpre o prometido. E passado algum tempo ele diz-lhe que tem dificuldades, que não tem dinheiro…mas ela pode ajudá-lo… não custa nada… é por pouco
tempo… Ela chora e não quer. Mas o amor é forte, e para prová-lo, faz-lhe a vontade.

E assim começa a vida de prostituída.
Vivia em conflito. Não era esta vida que queria ter. Era outra bem diferente.
“ Olhe, é o destino, o meu destino é este.”
A fatalidade. O não encontrar saídas… obriga-a a suportar a situação
Mas esta é a única forma de entrar no meio prostitucional ?
Esta é muito comum. Mas há outras formas.

Maria conta-nos como se iniciou na prostituição:
“Não aguentava a vida em casa. O meu pai batia-me e nos meus irmãos. A minha mãe chorava. Também levava pancada. Ele bebia muito. Fugi. Andei pelas ruas sem saber o que fazer. Tinha imensa fome. Um senhor ofereceu-me um almoço, levou-me para casa dele. Ele obrigou-me a ir para a cama. Fiquei em casa dele três dias… mas não o suportava…
Deixou-me num bar do Cais do Sodré e disse-me: é aqui o teu lugar. Vais aprender depressa.
E realmente, aprendi. Chorei muito, mas… não encontrei outra saída. Não queria voltar para casa.”

Mulheres prostitutas acolhem, por vezes, jovens que saem de casa e tentam evitar que recorram à prostituição, mas não encontram alternativa e indicam o caminho que conhecem para ganhar dinheiro rapidamente…
Jovens “entram” na prostituição através de donos de casas de passe que as aliciam prometendo-lhes trabalho… Estas jovens ficam prisioneiras destes proxenetas que as fazem circular de “casa de passe” para “casa de passe”, impedindo-lhes o contacto com o mundo exterior. Neste sistema já organizado de proxenetismo, raptam jovens e crianças…
A falta de informação leva também muitas jovens, na procura de trabalho, a serem confrontadas com situações que as conduzem à prostituição.
Teresa procura trabalho por jornal.
Encontra uma proposta de emprego aliciante.
“ Jovem com boa apresentação, com idade compreendida entre os 18 e os 25 anos,
precisa-se para servir à mesa em bar. Ordenado 500 Euros mais percentagens”
Teresa responde ao anúncio e começa a trabalhar no bar, a servir às mesas.
Pouco tempo depois o patrão pede-lhe para fazer companhia aos clientes solitários. Ela ganharia o que quisesse. Tudo dependia do que ela fizesse o cliente beber, e podia beber com ele porque o cliente pagava.
Ela passou a ganhar à percentagem sobre as bebidas consumidas… mas tinha que ser amável, tinha que fazer com que o cliente se sentisse bem… E Teresa depois do bar fechar era aliciada pelos clientes a passar o resto da noite por um preço elevado…
Teresa começou por alternar e, depois, por prostituir-se com os clientes do bar.

O meio prostitucional funciona como um mercado de oferta e de procura. Oferta por parte da mulher que se vende. Procura por parte do homem que a compra.
Este é o caso mais simples, mas o mais raro. Na maioria dos casos, oito ou nove em cada dez, intervém uma terceira pessoa, o chulo ou proxeneta.
A mulher prostituída é uma intermediária do dinheiro que vem do cliente, passa pelas suas mãos e segue para o chulo ( proxeneta) e / ou outras formas de proxenetismo.

O “meio “ é constituído por vários agentes para além da mulher prostituída, do cliente e do chulo e tem como suporte um conjunto de infra-estruturas:

  • Donos/as de pensões – locais onde se praticam “visitas” (espaço de tempo de uma prática sexual) e/ou dormidas, onde o dinheiro entra de 10 em 10 minutos, frequentados, ao dia, por várias mulheres que são prostituídas. (No Bairro Alto existem cerca de duas dezenas de pensões que cobram preços entre 5 a 7 €uros por visita e 10 a 17 €uros por dormidas).
  • Donos /as de bares – vendem a presença das mulheres prostituídas, conseguindo assim um maior número de clientes. Podemos encontrar no Bairro Alto mais de uma dúzia de bares, entre bares de “alterna”, e bares de “espera”.
  • Bares de “alterna” – nestes bares a presença de mulheres, nem sempre prostituídas, é acrescida ao preço das bebidas. Elas devem permitir aos clientes “
    determinadas atitudes “ levando o cliente a um maior consumo.
  • Bares de “ espera” – são bares onde as mulheres prostituídas esperam os clientes. Aqui, o dono ganha pelo maior número de pessoas que entram e saem, ao dia, do seu bar. Nalguns casos, estes bares têm por cima quartos, onde são permitidas “ visitas”.

Algumas amas dos filhos – as mulheres prostituídas recorrem com muita frequência a amas a tempo inteiro (situadas no meio prostitucional) pelo facto de necessitarem de alguém que lhes tome conta dos filhos, de dia e de noite, para que elas possam prostituir-se. Além do mais, nos locais onde é normal residirem (quartos de pensão também no “ meio”), não é permitido ter crianças.

Só dentro do Bairro Alto podemos encontrar cerca de meia dúzia de amas que cobram preços que variam entre os 8 a 15 €uros, por dia, e por criança. Estas amas, que são, nalguns casos, antigas prostituídas, sofrem graves carências sócio-económicas, não oferecendo condições mínimas de bem-estar e desenvolvimento às crianças de quem cuidam.

Muitas vezes, em quartos degradados, de espaço diminuto e pouco arejados, encontramos um número elevado de crianças que sobrevivem em situações de risco. As mães não conseguem encontrar alternativas.

Outros locais de prostituição

Na rua a prostituição é visível, as mulheres têm imagem pública. O contacto é fácil.
Podemo-nos aproximar, conversar, dizer-lhes que estamos disponíveis para apoiar,
podemos falar-lhes dos seus direitos enquanto pessoas, podemos criar relacionamentos empáticos que possibilitam referências positivas e que são valorativos para quem se sente marginalizado e, ao longo da sua vida interiorizou, o estigma da exclusão.

Existem outros locais de prostituição: bares de luxo, hotéis, casas de passe, casas de massagens, agências.

Só que nestes locais os clientes têm alto poder económico e as mulheres têm uma aparência que as faz aproximar (confundir) com a origem social do cliente. E, por isso, a ideia generalizada de que as pessoas que se prostituem nestes locais são de uma classe social diferente das que são prostituídas na rua.

A prostituição funciona como um mercado: oferta/ procura e, como em qualquer mercado, a oferta adapta-se à procura e, por isso, o aspecto bem cuidado das mulheres que são prostituídas nestes locais. E devido aos nossos estereótipos de pertença, inconscientemente as colocamos na classe social do cliente.

“ Tenho que me vestir muito bem. A roupa interior também tem que ser muito bonita. Os clientes são muito exigentes quanto ao nosso aspecto. Também se não estivermos bem vestidas o porteiro não nos deixa entrar”.

A violência nestes locais é oculta. É exercida entre paredes.

“ No quarto do hotel, eu sujeito-me a tudo o que o cliente quiser fazer e não posso fazer nada. Ele é que tem o poder, porque é ele que tem o dinheiro.

Estive horas a fazer de estátua em cima de uma cadeira e o cliente a olhar deitado na cama. Já me queimaram com pontas de cigarros”

Existem clientes que contratam várias mulheres para assistirem a práticas sexuais entre elas e promovem bacanais.

As agências

São locais que funcionam como um “ escritório”. Têm vários telefones e telemóveis (muitos vêm em anúncios classificados dos jornais). Têm sob o seu controle várias mulheres: brancas, negras, asiáticas, brasileiras, romenas, russas…

O cliente telefona, diz o tipo de mulher que quer. Combinam o preço, o local do encontro (o andar) e contactam com a rapariga para o seu telemóvel.

O tráfico

Encontramos redes de tráfico nas ruas da cidade de Lisboa. São mulheres oriundas de outros países e até continentes que querem “fugir” à pobreza extrema e que vêm para a Europa com a promessa de um trabalho e que são colocadas na prostituição.

Estas jovens e mulheres não falam português. São muito reservadas quanto a contactos com outras mulheres e com pessoas exteriores ao “meio”. Sabemos que estão ilegais, não têm documentos (foram-lhes retirados pela rede de proxenetismo) e que ao fim do dia entregam o dinheiro ganho a uma pessoa pertencente ou controlada pela rede.

Ficam com algum dinheiro que enviam para a família que ficou no país de origem,
porque a vinda para a Europa foi com o objectivo de ganharem dinheiro para mandar para a família a fim de assegurar a sua sobrevivência. Na rede existem indivíduos conhecidos da família que ameaçam contar-lhe a “vida” que fazem se tentarem fugir.

Estas mulheres vivem no “terror” do repatriamento, pois se a ameaça se concretizar são rejeitadas pela família e pela comunidade, ou são mortas, ou ficam novamente nas mãos dos proxenetas.

Existem também mulheres traficadas em casas fechadas. Sem documentos e ilegais, não têm contactos senão com as pessoas pertencentes à rede, e com os clientes. Têm dificuldade em comunicar umas com as outras pois são de países diferentes e não falam, por isso, a mesma língua. Estas casas espalham-se pelo nosso país como “cogumelos”. Conhecemos várias que estão adaptadas ao estatuto social do cliente.

Casas de luxo são compradas pelo proxenetismo (branqueamento de capitais), onde estão jovens, que são prostituídas por clientes de luxo. Estas jovens percorrem o nosso país de norte a sul, permanecendo no máximo 1 a 2 meses em cada casa e depois são vendidas para outros países.

Existe também um tráfico interno, isto é, jovens portuguesas que são prostituídas em casas fechadas e que, também elas, ficam prisioneiras de um sistema fechado, percorrendo o país num circuito de venda de proxeneta em proxeneta. Esta situação não é considerada na lei como tráfico.

Conhecemos uma casa de passe, numa zona de luxo da cidade de Lisboa, onde as mulheres são vestidas à moda do século dezanove e que faculta também fatos da mesma época aos clientes.